sábado, junho 07, 2008

Dando "o Litro"

Na vida, os obstáculos aparecem-nos quando menos esperamos; Só temos mesmo que os ultrapassar. Contornando-os, umas vezes, removendo-as outras, deixando que alguns nos atrasem, mas nunca desistirmos por eles aparecerem e pensarmos que são inultrapassáveis.
Inultrapassável apenas a morte!
Bom fim-de-semana
Publicada na Revista "O praticante" no mês de Maio:


"A primeira curva era acentuada, inclinada para a direita, mas acentuada. Há pessoas ligeiramente inconscientes, estado ou qualidade em que eu às vezes me incluo, que apesar de ver e estar perante mim a serra e, de saber que se está na parte debaixo da mesma, sei que só há uma possibilidade: subir.
Porém, na vida às vezes é melhor pensarmos numa curva de cada vez e, foi o que aconteceu. À primeira curva sucedeu a segunda, à segunda a terceira e o terreno continuava cada vez mais inclinado.
Cansado, já? Pois, é melhor nem pensar nisso, porque certamente ainda só estão realizados 500 metros. Pergunta “inocente”, ao colega, amigo e naquele momento “irmão” de jornada (apesar de saber sobejamente a resposta), “quantos quilómetros são esta prova?”. “Queres em metros ou em quilómetros? É que se queres em metros são 17.000, se queres em quilómetros, são apenas 17”. Apesar da resposta ser a brincar o meu humor ficou radicalmente alterado. Pior do que ter percebido que ainda faltavam 16.500 metros, e de eu já estar com os “bofes de fora”, muito pior foi ver que ainda havia toda uma serra para subir.
O que fazer? Desistir? Nunca! É palavra que não cabe no meu vocabulário. Mas 16.500 KM quase sempre a subir? Só de olhar fiquei mais cansado. Preferi distrair-me. Que tal pensar em futebol, política, na natureza ou até na linda atleta que me acabava de ultrapassar. Mau..! Ultrapassou ela, mais uma senhora que corre todas as provas e tem bem mais de 50 anos, assim como outro e outro e ainda outro.
“Mau, Maria”, estava na hora de puxar do brio, deixar-me de lamechices e ir à “guerra”. Assim foi, cerrando os dentes, conversando com o amigo, ouvindo música baixinho no MP3 e apreciando a paisagem de repente estava no cimo da serra. Havia era um problema. Só tinha passado meia prova. Nem isso, 7 Km. Bem, “ainda haverá alguma subida, ou agora é sempre a descer?”, perguntei a um, outro e outro, até que um atleta, daqueles “batidos” nestas provas, me respondeu: “há só mais uma subida, mas muito difícil”. Animado por só haver mais uma subida, mas preocupado com o seu grau de dificuldade lá a vislumbrei. Afinal não era tão difícil assim. Acelerei até, com a moral no topo. Passou a subida e descontraí. Agora é sempre a descer e, a descer todos os santos ajudam, não é? Pois bem, eis senão quando se nos depara a tal subida. Nem sei o que pensei. Afinal a outra não era considerada sequer uma subida, pelo tal atleta “batido”. E agora? O que fazer? Cerrar os dentes, ir buscar forças à alma e continuar devagarinho.
Oops, custou mas foi. Com uma pequena paragem, lá fizemos a subida e, depois meus amigos, a moral já corre por nós. É só deixar o corpo ir e correr atrás dele.
E, de repente..a meta à vista!!!
Há alguma sensação melhor para um desportista? Certamente que não. Para trás ficaram, metro após metro, litros de suor, “quilos” de dor, de abnegação, de sacrifício, de vontade e, eis que a vemos, ali, ao virar da esquina.
Já com o saquinho que a organização ofereceu, a t-shirt nova mudada (a outra estava encharcada) e reencontradas as nossas amigas que tinham feito a prova de 5 Kms aproveitámos para visualizar o magnífico cenário que se nos deparava, com a satisfação própria que o cronómetro nos mostrava: 1h28 minutos por 17 Km numa prova a subir, feito por um brincalhão como eu que só tinha antes feito uma prova de 10 Km em terreno plano? Tempo fantástico, ambiente óptimo, experiência a repetir, numa prova que aqui compartilho com vocês. Chama-se “Grande Prémio do Fim da Europa” e a Serra que referi é a de Sintra. Com esta informação acredito que os amigos leitores até fiquem cansados, não é? Só de imaginar..."

1 comentário:

António disse...

Artigo engraçado.

A mensagem inicial uma grande verdade.
Precisamos de perseverança, de ser menos acomodados.