domingo, maio 20, 2007

Um Conto (lá para 2008)

Em Setembro de 2006, escrevi um artigo no extinto "Notícias do Seixal" e publiquei-o também no "Setúbal na Rede". Entusiasmado com a adesão de leitores amigos que se pronunciaram favorávelmente ao seu teor, fui desafiado por pessoa amiga a inseri-lo no, à altura, novo portal do também novo semanário - "O Sol". E assim criei o nick-name "solícito" e publiquei o artigo. Foi, para surpresa minha, um artigo bastante polémico, visionado e, sobretudo, comentado.
Foi criada uma tabela onde os mais visitados e mais comentados entravam em destaque. Esse post/artigo esteve semanas a fio como o mais comentado e dos mais visitados, de tal forma que tiveram de mudar a metodologia dos blogues em destaque para o tirarem de lá.

É esse post que eu aqui vos deixo. Embora com quase um ano, verifiquem que está quase actual. Espero que gostem! Limitei-me a fazer uma cópia e, se quiserem até podem aceder aos comentários. Alguns muito interessantes e de pessoas com responsabilidades no concelho (embora sob o terrível manto do anonimato).

UM CONTO (LÁ PARA 2008)

O Zé (Povinho) acordou novamente sobressaltado. Aquele verão havia batido todos os recordes. Era o tempo com picos de calor inigualáveis, eram os acidentes de carros em contra-mão (se calhar era melhor adoptarmos as regras dos Britânicos e conduzirmos ao contrário), era o seu despedimento como funcionário público, era a Internet, que, coitado, manifestamente não dominava, mas que o obrigavam a pagar tudo por lá, enfim, era a vida miserável com o Petróleo a mais de 150 dólares o barril a impossibilitar sequer sonhar em pôr um litro de gasolina no seu carro parado há mais de um ano, ou a nova taxa que o governo tinha inventado para pescar, imagine-se, já nem se pode levar o filho ao rio para lhe ensinar a arte milenar de lançar o isco sem que lhe apareça um fiscal à perna a pedir a licença). Coitado do Zé, não podia sair à rua durante o dia por causa do ozono com níveis proibitivos. Já não podia ir passear á serra porque os incêndios tinham destruído tudo. Ia ver o quê? Cinzas? Restava-lhe o subsídio de Desemprego, mas até isso já tinha novas regras. Ainda teria direito? Teria direito a algo que não pagar?

Ainda se lembrava com saudades do ano de 2006. “Saudades, como é possível!!?”, pensou, mas sim, tinha mesmo saudades. Qualquer pessoa diria que aqueles primeiros meses de 2006 não deixariam saudades a ninguém, mas também ninguém sabe o futuro, não é? E não é que aquilo que parecia um pesadelo em 2006 afinal de contas era apenas um presságio do que se iria passar, logo a seguir? “Como é possível?”, repetiu para si mesmo Que saudades que ele não tinha de ver um jogo de futebol do campeonato Português. E de ver as equipas Portuguesas nas competições Europeias, mas desde Setembro de 2006, que a FIFA tinha suspendido o futebol Português do seu seio. Devíamos esse “favor” ao inenarrável António Fiúza, ex-Presidente do defunto Gil Vicente, também ele irradiado, ao Major Valentão e afins. Era para aprendermos, diziam alguns. Só que esses intelectuais não sabem que o futebol, ainda assim, era das poucas alegrias que os portugueses tinham. Falar de quê? Do desemprego, sempre a subir? Do IRS que o Governo tinha prometido que baixaria e que fez sempre precisamente o contrário. Do interior que o Governo tinha feito questão de desertificar de vez ao fechar as poucas escolas, maternidades, hospitais, tribunais, etc, etc.

O País agora era próspero, diziam eles, só os departamentos que davam lucro é que estavam abertos. Hospital que não desse lucro fechava. Doentes? Vão para Espanha, dizia o Ministro. Eles mandam-nos médicos e enfermeiros, nós mandamos-lhes parturientes e doentes. Operações? Já não há lista de espera: fazem-se em qualquer hospital da U.E. E tudo porquê ou para quê? Para pagar o deficit das Finanças Públicas que eles nunca tinham conseguido baixar, aliás, tinham-no aumentado sucessivamente. “Como é possível?”, continuava o Zé desesperadamente a pensar. Tantas medidas, tantos sacrifícios pedidos aos contribuintes, despedimentos na função pública, cortes orçamentais e não conseguiam baixar o seu próprio orçamento? De facto há coisas que o Zé não conseguia entender:”se não conhecia ninguém contente com o desempenho do Governo, se todos estavam de acordo com a sua péssima gestão, apenas atrás do brilho fácil, como conseguia um governo assim sobreviver nas sondagens? Lembrava-se de ter ouvido qualquer coisa a respeito de uma jovem Austríaca de 18 anos, de nome Natasha que tinha ficado cativa do seu agressor durante 8 anos e que quando foi libertada chorava a sua morte. Os especialistas chamam-lhe “Sindroma de Estocolmo”, ou seja, agressor e agredido criam laços tais que o agredido confunde o temor que o agressor lhe incute, aceitando qualquer concessão que este lhe faça como sendo uma grande benesse. Está explicado, o País vive esse sentimento em relação ao Governo, sobretudo ao PS. Quanto pior eles nos fazem, mais agradecidos estamos por não nos terem feito ainda pior. E ainda podem fazer pior? Essa é a questão!

O Zé também estava triste com o que a CDU lhe havia feito. Ainda tinha na memória o que esse partido havia feito ao ex-Presidente da C.M.Setúbal e agora ouvia dizer que iam fazer isso também no Seixal. Não é que gostasse muito do Presidente, ou que tivesse muitos motivos para apreciar a sua obra, mas não está certo, afinal de contas tinha votado naquele Presidente. Que não, diziam os puristas da lei, não se vota em Presidentes! É tudo legal, não há dúvida. Mas é justo? Foi justo quando o mesmo Zé havia votado no Durão Barroso e ele foi para Bruxelas? Não foi, mas aí o povo teve oportunidade de castigar o seu Partido. Com o Carlos Sousa, os Setubalenses tiveram que “gramar” com uma Presidente que claramente não era em quem tinham votado durante quase um mandato inteiro. Sendo assim, o PS da próxima vez pede o Sócrates emprestado e o PSD pede o Cavaco, num qualquer concelho adverso, eles ganham e depois vão-se embora. Gostavam? Mas era legal, sabiam? Aí talvez compreendessem que o que verdadeiramente está em causa: não é se é legal ou não, mas sim se o Povo foi ludibriado ou não.
NOTA DO AUTOR: Este texto é pura ficção, não pretende bulir com a dignidade de nenhum dos citados, nem sequer brincar com a dignidade institucional que o cargo dos citados requer, mas apenas adaptar a realidade conjuntural ao meio, ajudando assim a que se compreenda melhor a situação vivida.

4 comentários:

António disse...

Caro Paulo,
excelente artigo. Parabéns!

Anónimo disse...

Fantástico, está espectacular.
Excelente sentido de análise e humor.

Anónimo disse...

Olá meu amigo. Acompanhei muito de perto o teu percurso no SOL, e deixa-me que te diga o quanto modesto estás a ser. Os teus artigos, nomeadamente este que considero espectacular, foram um autêntico êxito no SOL. Em poucos dias atingiste um número de visitas e comentários que excederam todas as expectativas.
Mantiveste-te em destaque. 1ª página, durante semanas.
E os trocadilhos com alguns adversários que se apresentaram sempre no anonimato ( eles não sabem que tu sabes quem são, pois não?)? Foi hilariante. Como sabes, aprecio a tua forma de escrever, acho que escreves bem e que tens grande capacidade em construir textos, de fácil leitura, com muito humor, mas com muito conteúdo.

Força e que tudo corra bem com o blog

MC

Anónimo disse...

O sentido de actualidade é um facto.
A escrita maravilhosa e empolgante.
O sentido de ironia apuradissimo.
Continue assim