quarta-feira, maio 23, 2007

Framboesazinha (de ouro)


Framboesa de Ouro é um prémio cinematográfico, paródia do Oscar, que premeia só os piores filmes produzidos ao longo de um ano. Actualmente é escolhido por internautas membros da "associação".

Se procurarem numa qualquer enciclopédia também verificarão que se trata de um fruto frequentemente confundido com a amora, com o seu sabor adocicado, de trago ácido.
É precisamente essa particularidade agridoce que me fez lembrar este governo.

Ora, framboesa tem tudo a ver com o nosso governo. Este governo já é larga e honorificamente vencedor da “Framboesa de Ouro”. Mais, quase me atrevo a dizer que tem direito a esse prémio perpetuamente.

A sede de poder, concentração totalitária revelada pelo Primeiro Ministro, começa a ser preocupante, deixando de ser um traço de personalidade, para uma forte patologia, que até teria a sua graça, não fosse incidir sobre todos nós. Alguns exemplos para o abismo para onde caminhamos?
Comecemos pela bizarra, mas infelizmente verídica, história de um professor de Inglês, que trabalhava há quase 20 anos na Direcção Regional de Educação do Norte (DREN), foi suspenso de funções por ter feito um comentário - que a directora regional, Margarida Moreira, apelida de insulto - à licenciatura do Primeiro-ministro, José Sócrates. A directora regional não precisa as circunstâncias do comentário, dizendo apenas que se tratou de um "insulto feito no interior da DREN, durante o horário de trabalho". Perante aquilo que considera uma situação "extremamente grave e inaceitável", Margarida Moreira instaurou um processo disciplinar ao professor Fernando Charrua e decretou a sua suspensão. "Os funcionários públicos, que prestam serviços públicos, têm de estar acima de muitas coisas. O sr. primeiro-ministro é o primeiro-ministro de Portugal", disse a directora regional. Motivo que ofendeu tanto a Sra. Directora Regional? um comentário jocoso feito pelo professor, dentro de um gabinete a um "colega" e retirado do anedotário nacional do caso Sócrates/Independente, que se pinta, maldosamente de insulto, leva-se à directora regional de Educação do Norte, bloqueia-se devidamente o computador pessoal do serviço e, em fogo vivo, e a seco, surge o resultado: "Suspendo-o preventivamente, instauro-lhe processo disciplinar, participo ao Ministério Público" A directora confirma o despacho, mas insiste no insulto. "Uma coisa é um comentário ou uma anedota outra coisa é um insulto", sustenta Margarida Moreira. Sobre a adequação da suspensão, a directora regional diz que se justificou por "poder haver perturbação do funcionamento do serviço". "Não tomei a decisão de ânimo leve, foi ponderada", (e eu afirmo, como actuará esta senhora quando tomar decisões de ânimo leve!!??). Neste momento, Fernando Charrua já não está suspenso. Depois da interposição de uma providência cautelar para anular a suspensão preventiva e antes da decisão do tribunal, o ministério decidiu pôr fim à sua requisição na DREN. Como o professor, que trabalhava actualmente nos recursos humanos, já não se encontrava na instituição, a suspensão foi interrompida.
Se a moda pega..

Claro que não foi o P.M. que directamente promoveu esta situação, mas sendo uma situação pública, pergunto: o que aconteceu a esta directora regional? Ninguém no Governo soube disto?
Adiante, o Governo segue perigosamente na senda da concentração de poderes no estado, retirando competências e visibilidade política a quem lhe faz frente. Tivemos a Lei das Finanças Locais, que de tão escandalosa conseguiu o feito notável de colocar toda a Associação Nacional de Municípios contra ela (incluindo as Câmaras do P.S.), a Lei das Finanças Regionais, que culminou como todos vimos na segunda maior vitória de sempre do PSD e uma clamorosa derrota do P.S. e agora prepara-se para fechar com chave de ouro (só por isso lhe ofereço mais uma framboesa) com a Novo Regime Jurídico que regulamenta as Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, quando já decidiu acabar com as restantes Áreas Metropolitanas do País. Ou seja, faz exactamente o contrário daquilo que sempre defendeu, incluindo a garantia dada hoje mesmo pelo Senhor Secretário de Estado aos representantes dos partidos na Grande Área Metropolitana de Lisboa, de que essa eleição não vai ser directa. Para o comum dos leitores que não sabe sequer o que é a G.A.M.L. certamente pouco lhe interessará esta temática, mas já gostará de saber que os representantes do órgão executivo (Junta Metropolitana) deixarão de ser os presidentes das Câmaras (eleitos democraticamente, e neste particular até estou à vontade, pois o actual presidente da J-M. é do PCP) para passarem a ser técnicos indicados pelos Presidentes das Câmaras. O que pretende o Governo? Para além de ter mentido, sim porque mentiu e isso deve sempre ser dito (dou-lhe outra framboesa, sr. P.M.), pretende eliminar politicamente mais um órgão intermédio do Estado, pois, por mais competente que seja o futuro presidente, não tem a legitimidade, nem visibilidade política que tem um presidente de uma Câmara Municipal, eleito entre os seus pares (Rui Rio – percebem agora?? No Porto e Carlos Humberto na nossa AML).

Por fim, entre muitos outros assuntos, falo-vos de um que mais tarde voltarei a abordar com o destaque que merece face à sua importância social, sobretudo no nosso distrito: O Desemprego. Sr. P.M., ofereço-lhe mais uma framboesa, esta bem grande e amarga, pois o senhor também aqui mentiu aos Portugueses e vai mentindo todos os dias quando anuncia o fim do problema e, como que por artes mágicas, de repente temos o pior desemprego dos últimos 15 anos. Claro que administrativamente vai eliminando desempregados, muitos deles que ficam sem um subsídio de desemprego, para o qual contribuíram ao longo de uma vida de trabalho, mas só porque não se apresentaram numa qualquer “apresentação quinzenal”, o perdem irremediavelmente. Ainda bem que todos sabemos que o partido Socialista tem historicamente “preocupações sociais”, porque se não as tivesse...

Senhor P.M., senhor Ministro do Trabalho, o que fizeram vocês pelos mais de mil desempregados da Alcoa, aqui no nosso Distrito? E que medidas está a tomar para que a Delphy não encerre a sua fábrica no Seixal? Ou prefere esperar que também aconteça, como aconteceu na Guarda esta semana, para tentar encontrar uma solução? Se o assunto não fosse tão sério, dir-lhe-ia que fez por merecer todas as framboesas que amavelmente lhe ofereci neste texto. Estou certo que mais tarde ou mais cedo, o povo oferecer-lhe-á uma bem grande e amarga.

4 comentários:

Anónimo disse...

Fantástico. Grande imaginação! Framboesazinha de ouro? De onde terás tirado essa ideia? Tu lá saberás! Mas que está giro, está.

MC

Anónimo disse...

Artigo muito engraçado. Parabéns.



F.O.

Anónimo disse...

Continuando a fazer jus ao "TUDO A NÚ". Adorei!

Ana Clara

António disse...

Penso que as preocupações de que fala em relação à nossa zona, Margem sul, não fazem muito sentido, afinal para quê preocupar-se com um deserto aonde não existe universidades, hospitais, escolas e acima de tudo pessoas!

O problema da Margem Sul foi de que nunca foi capaz de impor-se, faltou sempre uma visão de futuro e sobretudo capacidade de compreender o seu potencial, quer a nível industrial, turístico e sobretudo humano. Nunca soube bater o pé a Lisboa, diga-se ao poder central, como por exemplo o Norte. Sempre andou a reboque de Lisboa e considerou-se uma extensão da própria capital. Basta percorrer a margem sul para perceber de que não tem muito a ver com Lisboa e que as suas gentes têm uma personalidade e uma forma de estar muito próprias e uma grande riqueza cultural subaproveitada.

Como sempre excelente artigo.

António