quarta-feira, maio 09, 2007

Ambrósio anda macambúzio...

Era um dia de festa. Daqueles dias de Abril, daquele imemorial Abril de que uma certa esquerda se apropriou indevidamente, mas que é o nosso Abril, o Abril dos democratas, daqueles que defendem o primado do povo contra a opressão, a intolerância, o abuso de direito, sobretudo dos órgãos do estado. Não o Abril que permite que uma Câmara Comunista tenha outdors espalhados pelo concelho, indiscriminadamente, em jardins, rotundas e outros espaços e vá implicar com apenas um cartaz por ser da JSD e por ter uma mensagem que não lhes agrada. Ainda se a mensagem fosse xenófoba ou racista, intolerante ou antidemocrática, ainda se aceitava a decisão dos seus camaradas, mas não! A mensagem apenas pedia à câmara que ela acabasse a obra que indevidamente prometera, ou seja, a Estrada Nacional 10 e agora vinham dizer que é uma estrada a cargo do estado, mas quando prometeram não sabiam já eles isso?
Por isso Ambrósio andava macambúzio naquele dia de festa. Pouco lhe importava que fossem inaugurar o Metro de Superfície se ele não o podia usar. De que lhe servia apanhar o metro em Corroios para sair na Cova da Piedade? Que sentido isso lhe fazia? Nenhum. Perguntava-se a si mesmo porque não vinha o Metro pelo menos até à cruz de Pau? Porque não fazia o interface com o comboio da fertagus e com os barcos do Seixal e de Cacilhas? Pronto, era uma questão de orçamento diziam, mas como podia Ambrósio aceitar as contas que os seus governantes faziam se tinha lido, e ninguém havia desmentido que só pelo atraso no início da exploração, que era de dois anos, a concessionária pedia ao estado milhares de euros que certamente serviriam, por exemplo para o P.M. ter anunciado já um calendário do troço até à Costa de Caparica em vez de se ter ficado apenas pelas intenções (e todos nós sabemos como este P.M. é pródigo em não cumprir as suas promessas).
Ambrósio também não conseguia compreender como é que os seus camaradas, pelo menos publicamente apenas a um mês, ou nem isso, da inauguração da inauguração é que tinham “descoberto” trezentas e tal anomalias, quando era sua obrigação tê-las apontado mais cedo e exercido publicamente toda a pressão junto da opinião pública, de forma a conseguir defender a sua população. Afinal não era isso que tinham conseguido, e muito bem, relativamente à questão do hospital? De que serve a Ambrósio o Metro se, não só não lhe tem utilidade, no troço actual e enquanto não se estender a Cacilhas pelo menos, e se, para cúmulo, desde que foi inaugurado o trânsito automóvel piorou substancialmente nesse troço?
Pois é, Ambrósio anda macambúzio. Já não tem a alegria de outrora. Andava preocupado, triste, mas sobretudo, descrente. Podia ser lá de outra forma? Ele pertencia à velha guarda, um verdadeiro comunista. Acreditava que vivia no Paraíso, sim, o paraíso. Poucos lugares no mundo tinham resistido ao comunismo, mas nós não, orgulhosamente ainda somos um “reduto vermelho”. Só nós, a Coreia do Norte e pouco mais. Quinzenalmente lá ia ele ler um dos 65.000 exemplares do Boletim Municipal que, edição após edição, mês após mês, ano após ano, lhe recordava que o paraíso era na terra e a terra era o Seixal. Ele era a melhor rede escolar do País, era o local mais seguro para viver, era a melhor água, o melhor turismo, o melhor ambiente e, ele, coitado, resignado acreditava. E divulgava. E até tinha uma colecção engraçada para aí umas 20.000 fotografias do Sr. Presidente da Câmara (deste e do anterior) em sessões oficiais ou não, mas que provavam que somos os melhores). E se havia alguma coisa que lhe corresse pior na vida, claro que a culpa era do governo. Tinham sido os malandros dos sucessivos governos os responsáveis. Claro. E para quê discutir se era assim mesmo? Uma coisa o tinha deixado feliz. Era uma vingança: havia para aí um membro do PSD incomodado porque ninguém da oposição (do PS ao PSD, passando pelo Bloco de Esquerda) saía no Boletim Municipal e os seus camaradas no último número tinham mostrado quem mandava. E quem mandava não havia dúvida nenhuma: eram os comunistas. Por isso tinham tido o especial cuidado de tirar uma fotografia à mesa da assembleia municipal e aos seus vereadores, recortando cirurgicamente todos os vereadores da oposição. Era de homens Caramba! com o PCP ninguém se metia!!!
Mas o Ambrósio, coitado, é um crédulo, mas também não se deve abusar da credulidade das pessoas e, há anos que andava cá com uns pensamentos estranhos, que os tinha conseguido expurgar: seria a nossa Câmara assim tão bem gerida? Se assim era, porquê que tinha uma derrapagem financeira tão grande? Porquê que precisava de gastar milhares de euros em propaganda, se o trabalho estava à vista de todos? Porquê que tinha necessidade de “esconder” toda a oposição, desde sempre? Mas se eles eram tão bons, porquê?
E a água canalizada que lhe sabia mal se tínhamos uma rede de tratamentos super-moderna, como era possível? Seria sabotagem do governo? Deste ou doutro qualquer? E os espaços verdes? E as ruas esburacadas? E os bairros sociais? E o PER (Plano Especial de Realojamento) desaproveitado? E o barulho da siderurgia? E os maus cheiros (nauseabundos, por vezes) em alguns locais? E o bairro da Jamaica? E a Baía mais linda do mundo, mas sucessivamente adiada? E..e...e...não! Tinha de expurgar esses pensamentos impuros. Estava decidido, ia comprar uma habitação de luxo, daquelas que os camaradas agora propagandeiam na BTL, talvez já no projecto da Siderurgia. Mas de repente percebeu, não podia! Tinha sido traído. E por quem? Por quem menos esperava. Pelos seus próprios camaradas. Esses agora dedicavam-se a promover empreendimentos para os ricos. Empreendimentos a que nunca teria acesso. Pior. Ele próprio não acreditava que alguma vez na Siderurgia se pudesse construir e viver com qualidade de vida, pois a construção será no segundo maior depósito de nitratos de carbono do País. Será seguro, pensou Ambrósio. E a resposta recorrentemente era NÃO. Pior, ouviu dizer que os malandros do PSD e PS local iam fazer um inquérito para aferir do nível de satisfação dos seus munícipes e a sua grande dúvida era que teria de responder que não estava satisfeito, mas como fazê-lo sem trair os seus camaradas?
Por isso Ambrósio anda macambúzio... e (Nota do autor: tem razões para isso!!!)

Publicado no "Jornal do Seixal", em 05 de Maio de 2007

4 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns. Como sabes sou grande apreciadora dos teus artigos.

Ana Clara

Anónimo disse...

Parabéns.....
Cada vez estão melhores os seus textos.


Kitty

Anónimo disse...

És brilhante. Os teus textos são um verdadeiro espectáculo.



F.O.

António disse...

Este texto é brilhante, parabéns!

É a primeira vez que venho a este blog e confesso que gostei muito!