domingo, maio 09, 2010

Aguenta Coração. Aguentará???


Entrámos de mãos dadas. A sensação das suas pequeninas mãos pedindo protecção remonta-me à minha infância. Aí, como aqui, entrei no Estádio da Luz (na altura o antigo) dando as mãos a um homem. Inverteram-se os valores, então era eu uma criança na antecâmara para presenciar o primeiro título do Benfica, ao vivo e a cores (sim porque na altura nem todos os jogos davam na TV, muito menos todos tínhamos televisões a cores) num jogo frente ao Vitória de Setúbal.

Recordo-me como se fosse hoje, aquele terceiro anel completamente esgotado, ainda sem lugares sentados, empurrões e eu apenas não voava devido à firmeza da mão do meu tio.

Recordo-me de termos ganho, salvo erro, por 5-1 e de no final ter havido uma evitável invasão de campo e de polícia de choque, pedradas, um autêntico tumulto a estragar a festa.

Anos depois, muitos anos mesmo, já não sou aquele menino deslumbrado com o mundo. Já vi muitos mais títulos do Benfica (não tantos quanto gostaria), muitas centenas de jogos, já derramei muitas ilusões na vida, muita tristeza e, felizmente, muitas mais alegrias, por isso posso recordar o início desta linda época que culmina hoje.

Estávamos no dia 16 de Agosto do ano passado. Era agora a pequenina mãozinha do meu filho que me pedia protecção. Eram largas dezenas de milhar de pessoas à nossa volta e todo o cuidado é pouco. Não ficámos no nosso lugar habitual, mas para nós só conta ver o jogo. Ponham-nos a espreitar pelo buraco de uma fechadura para podermos aceder ao jogo e, garanto-vos, lá estamos nós. Eu e ele. Estejamos de pé, sentados, curvados, uma coisa é certa, nós não vacilamos. Agarradinhos. Aliás, ele vê o jogo completamente impaciente, agarra-se muito e quer-me contar tudo. Como se eu não estivesse a ver. Como se de um relatador se tratasse. Ele sabe tudo, o nome dos jogadores, as suas características, posições em campo. Tudo. Colecciona todas as cadernetas de cromos, tal qual eu fazia há muitos anos atrás. Quase me atrevo a dizer que aprendeu a ler primeiro o jornal “A Bola” do que o livro da escola.

A expectativa era enorme. A pré-época tinha sido muito boa. Promissora mesmo. Lá estávamos nós. No novo terceiro anel. Olhando, ansiando, sorvendo cada momento. O jogo não nos correu bem. Empatámos. O Cardoso falhou um penalti. Pensámos que seria mais uma época de "flop". Uma pré-época em grande, mas agora que “era a doer” estava tudo estragado. Saímos do Estádio tristes. Tínhamos apenas celebrado um único golo do Benfica. Tínhamos cumprido o nosso ritual. Um abraço sentido, ele nos meus braços, voando, comungando um sentimento muito só nosso. Somos muito próximos, mas o futebol aproxima-nos. Une-nos. Torna-nos imortais.

Hoje, quando o Benfica entrar em campo não estarei com o meu filho. Estarei dentro de um avião, rumo ao infinito, contudo estarei lá. Sei que sou um dos mais de seis milhões a comungar o momento. Sei que nesse momento sou irmão de José Sócrates, Alfredo Monteiro, José Saramago, Xanana Gusmão.

Sei que nesse momento não há raça, posição social, credo religioso a separar-nos. Sei que nesse momento estamos noutro planeta. O planeta Benfica.

Boa sorte meu filho!

NOTA: Fiz este texto hoje, mas para corresponder a uma revista que está a fazer um trabalho sobre o Benfica e me pediu que lhes fizesse um texto. A revista chama-se "Euro-Magazine" e, ao contrário do que é hábito, publico no blogue antes mesmo de ser editada. Mas a actualidade justificava e o seu director deu-me autorização

4 comentários:

Débora disse...

Meu Amor,

Quando estiveres rumo ao “infinito”, sabes que estarei contigo.

Relativamente ao Benfica, conheces a minha posição, contudo hoje, POR TI vou torcer pela vitória Encarnada, pois sei quanto ela significa para ti!

A tua Panisguinha :o))

bela disse...

Adorei sabes o que isto tudo conta para mim terei todo o gosto em ter este texto na minha revista Magazine Europa obrigado por tudo mereces este titulo e o teu filho mais ainda
Bjs

Anónimo disse...

Como sei o que descreves, foi pela tua mão que fui pela primeira vez ao velho estádio do Benfica, apavorada com tanta gente, mas ao mesmo tempo maravilhada por ver a " familia benfiquista". Se sou benfiquista devo-o ao melhor padrinho do mundo, que me ensinou a dizer benfica(ica)que me ofereceu uma camisola e que ainda hoje guardo, e que me tornou nesta mulher benfiquista com garra
Benficaaaaaaaa

Maria disse...

Adorei o blog! Emocionei-me ao vê-lo e mais ainda ao ler o texto. És de uma sensibilidade indescritível.
És um homem de convicções e de emoções.
É uma emoção para o teu filhote.